Interdisciplinaridade: o caminho da integração científica, artigo de Marisa Monte e Augusto Martins
( 05 de novembro de 2003 )
Fonte: Jornal da Ciência

Já existe um discurso 'pró-interdisciplinaridade' politicamente correto no meio científico, mas é marcante que iniciativas espontâneas não superam o estágio de concepção vez que se confrontam nas reações inibitórias do mesmo meio científico, que usa de suas próprias justificativas para recusá-las

Marisa Bezerra de Mello Monte é engenheira química e Augusto Wagner Padilha Martins é economista, ambos do Centro de Tecnologia Mineral do MCT. Artigo enviado ao JC e-mail:

A consolidação de uma linha de pesquisa acadêmica especializada é normalmente consubstanciada por publicações em periódicos internacionais e teses de alunos da pós-graduação.

Uma pesquisa acadêmica multidisciplinar, entretanto, além disso, cria associações inéditas entre equipes que normalmente não são cogitadas em áreas aplicadas, o que possibilita abordagens não convencionais, que estão além das técnicas usuais de pesquisadores dessas áreas.

Pequenos projetos, não programáticos mas bem estruturados, podem ser levados a cabo em laboratórios de áreas básicas, liderados por pesquisadores experientes.

Esses projetos não exigem mudanças radicais de linhas de pesquisa de seus proponentes, ao contrário, seriam colaborações entre equipes que não se afastariam das respectivas áreas de atuação.

Quem pensaria entregar recursos financeiros para aperfeiçoar instrumentação cirúrgica para olhos para grupos especializados em espectroscopia atômica? O laser, o melhor instrumento para cirurgias oftálmicas, nasceu graças aos estudos de transições atômicas, bem distante de qualquer aplicação à medicina.

Radioisótopos, ondas de luz e som, informática são outros exemplos de sucesso em usos interdisciplinares outrora inusitados com a biologia e a medicina.

No Brasil, pesquisadores da UFRJ e do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do MCT, protagonizaram um exemplo recente desse tipo de projeto, que nasceu acadêmico, no campo da evolução molecular, mas que atualmente contribui para a produção de insumos agrícolas.

De fato, o tipo de abordagem e os conhecimentos adquiridos sobre propriedades físico-químicas de interfaces entre minerais e soluções aquosas se mostraram eficientes nos estudos de modificação de minerais industriais (a exemplo da vermiculita e das zeólitas) que estão sendo usados na indústria e na produção de fertilizantes de liberação lenta.

O eixo central dessa pesquisa está na fronteira da bioquímica e biofísica, com necessárias abordagens relacionadas às propriedades estruturais de materiais amorfos e cristalinos, propriedades de minerais, de superfície de materiais e, especialmente, de interfaces entre sólidos e soluções aquosas.

Essas colaborações acadêmicas, propostas pelos professores Adalberto Vieyra (do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ) e Fernando de Souza Barros (do Instituto de Física da UFRJ), foram gradativamente ampliadas e atualmente se realizam em laboratórios de bioquímica, biofísica, de física dos sólidos e de tecnologias de minerais do Cetem.

Na conferência intitulada 'Life in the Universe: From the Miller experiment to the search for life on other worlds', realizada de 15 a 19 de setembro de 2003, em Trieste, Itália, foram apresentadas aproximadamente setenta contribuições sobre evolução molecular, selecionadas por comissão de árbitros.

Dois desses trabalhos, apresentados em sessão plenária, resultaram dessas pesquisas interdisciplinares realizadas pelos Institutos de Física e Biofísica da UFRJ e Cetem.

Entre as instituições que patrocinaram o evento, estiveram o International Centre for Theoretical Physics, Consiglio Nazionale delle Ricerche, NASA, European Space Agency, Paris 12 e a Scuola Internazionale di Studi Superiori ed Avanzati.

Esses exemplos de transformação de projetos acadêmicos em aplicados trazem características importantes. Primeiramente, os recursos iniciais para essas atividades, identificáveis como 'recursos de balcão', eram provenientes das próprias linhas de pesquisa dos pesquisadores atuantes; recursos especiais só ocorreram com as primeiras propostas de aplicações desses estudos em minerais e suas aplicações na agricultura.

E mais, o conhecimento mútuo entre pesquisadores, adquirido durante o desenvolvimento de pesquisas de caráter acadêmico, fez com que os projetos aplicados nascessem naturalmente com a possibilidade de utilização interdisciplinar dos diversos recursos laboratoriais disponíveis nos Institutos da UFRJ, no Serviço de Desenvolvimento de Novos Produtos Minerais do CETEM e, logo após, na EMBRAPA/Solos.

Preparar o futuro

No geral, constata-se que já existe um discurso 'pró-interdisciplinaridade' politicamente correto no meio científico. Mas é marcante que iniciativas espontâneas não superam o estágio de concepção vez que se confrontam nas reações inibitórias do mesmo meio científico, que usa de suas próprias justificativas para recusá-las: recursos financeiros insuficientes, dificuldade de julgamento técnico e distanciamento dos temas centrais da área.

Além disso, existem projetos gerados desse discurso que trazem conseqüências opostas e que em nada contribuem para a integração das iniciativas nas áreas científicas consideradas tradicionais.

São proposições com, pelo menos, um dos seguintes atributos: i) pesquisa exploratória ensaísta com bases conceituais em diferentes áreas; ii) revisões bibliográficas descritivas de um determinado tópico em campos cruzados da pesquisa; e o iii) 'reprocessamento' de estudos publicados em áreas diferenciadas de pesquisa.

Evidentemente, projetos inseridos nas iniciativas com escopo multidisciplinar, patrocinadas pelas agências federais e estaduais, aceleram a integração de institutos de pesquisa, centros universitários e a indústria.

No entanto, o estabelecimento de condições mínimas para as atividades interdisciplinares espontâneas (reconhecimento acadêmico e disponibilidade) induziria colaborações entre equipes já existentes mas distanciadas pelas demarcações atuais de áreas das ciências puras e aplicadas.

O que falta, portanto, é oferecer recursos financeiros em linhas de financiamento específicas que estimulem a participação de jovens pesquisadores em projetos interdisciplinares ensejando, assim, uma formação direcionada ao intercâmbio de áreas do conhecimento, o uso e o benefício sócio-econômico da pesquisa e a quebra de paradigmas tão sólidos da construção acadêmica brasileira.

Esses pesquisadores, com formação em ciências básicas, com vivência em projetos interdisciplinares, estariam, em futuro bem próximo, melhor preparados para contribuir e incrementar o setor produtivo do país.

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